Se as janelas de vidro do
meu quarto contassem a todos os reflexos que via eu não sei se suportaria.
Minha mochila carrega mais que os meus livros amarelados e meu coração carrega
mais que os vestígios que você deixou. Eu achava graça da sua bagunça, mas
chorei quando a bagunça foi em mim. Tem tantos desenganos cravados na minha
pele e tantos sonhos na lixeira do banheiro que eu me tornei uma sonâmbula que
não ousa mais dormir. Escrevi um pedido no canto do meu caderno torcendo para
que as palavras tivessem a força que eu deixei ir com você. Sabemos que o amor
nunca foi meu aliado e que eu amarrei minha esperança no pé da cama quando você
chegou. Eu queria um segundo de felicidade que durasse pra sempre. Eu queria a
luz da qual eu sempre fugi. O mundo dá voltas e na última que deu eu não
consegui me equilibrar. Agora eu enceno sozinha o filme que eu fiz pra nós
dois.
Meus amigos são todos
assim: metade loucura, outra metade santidade. Escolho-os não pela pele, mas
pela pupila, que tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
Escolho meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta. Não quero só o ombro
ou o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe
sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos. Quero amigos sérios, daqueles
que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia
não desapareça. Não quero amigos adultos, nem chatos. Quero-os metade infância
e outra metade velhice. Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no
rosto, e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu
sou, pois vendo-os loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me
esquecerei de que a normalidade é uma ilusão imbecil e estéril.