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" (...) Por que no fundo eu sei que a realidade que eu sonhava afundou num copo de cachaça e virou utopia. "
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quarta-feira, 29 de abril de 2015
Switchfoot ¨Concrete Girl¨
♪ ' Concrete girl
Don't fall down
In this broken world
Around you
Concrete girl
Don't fall down
Don't fall down
My concrete girl
Don't stop thinking
Don't stop feeling ...
terça-feira, 2 de setembro de 2014
Não soube, não quis.
(...) E se alguém perguntar de mim para você, simplesmente responda: ela traduziu minha vida, me tirou da escuridão em que vivia, me trouxe de volta e me proporcionou toda uma maravilhosa vida, mesmo que por pouco tempo, mas ela me fez renascer novamente.
E se depois disso alguém lhe disser: E porque vocês não estão juntos? Responda isso: - Não fui capaz de traduzir todo o sentimentalismo dela voltado para mim, não fui capaz de dar a reciprocidade necessária e hoje sei que alguém muito especial vai entrar na vida dela, e ocupará aquele espaço que por muito tempo foi meu e eu não soube cuidar, proteger.
(Autor: Grazzy Gonçalves)
O que você precisa saber antes de morar em mim.
Se os meus olhos são as janelas da minha alma, minha boca é a porta e, o beijo que acabo de te dar – a chave. Peço que repare na bagunça e pense, pense muito bem antes de entrar. A casa é pequena, mas comporta muitas coisas. Os cômodos do meu coração estão abarrotados de tentativas, repletos de receios, e guardam pilhas intermináveis das minhas mais vulneráveis expectativas.
Agora me responda: Tem certeza que quer entrar? Se a resposta for positiva, peço que entre com calma. Na sala do meu coração você encontrará centenas de filmes, que me fizeram rir e chorar – no abrigo de outros braços. Músicas que embalaram altos e baixos – com outros amores. Muitas fotos de viagens que fiz e coisas que quis, mas que hoje não passam de antigos e distantes rumores.
Na cozinha você sentirá o cheiro de muitos jantares. Temperos que eu costumava adorar e hoje já não posso suportar. Velas apagadas pela ação implacável do tempo. Talheres que alimentaram outras bocas e taças que embriagaram outros corpos.
Meu banheiro exala o cheiro de tantos perfumes, sabonetes e loções – quanto de decepções. Fios de cabelos distintos entopem o ralo do esgoto, enquanto escovas de dente diversas ocupam o chão. A água do meu chuveiro já lavou outros suores e o espelho sobre a pia já refletiu dias melhores.
O quarto do meu coração é o cômodo mais bagunçado, guarda tantas lembranças boas – quanto amores dilacerados. Nele você encontrará todo o prazer que dei e recebi. Todas as lágrimas que derramei e todas as alegrias que senti. Vários livros de cabeceira. Roupas por todos os lados. Noites em que fui feliz, e outras em que desejei dormir e nunca mais ter acordado.
Agora preciso que me diga: Tem certeza que quer continuar? Sim? Então caminhe até o quintal. Lá você verá quem fui e quem sou. Os espinhos que colhi, quando flores plantei e os fracassos que colhi – quando esperanças semeei. Mas verá também um pedaço de terra fértil, que resistiu bravamente e, anda precisando – urgentemente – de água, adubo, calor e amor.
Agora me responda com toda a sinceridade que reside em ti: Deseja assumir a responsabilidade de revitalizar a minha horta? Quer me ajudar a varrer o chão, lavar os pratos e pintar as paredes? Está disponível para me auxiliar na troca dos móveis e com a nova decoração? Carregará comigo todo o lixo para fora? Quer – do fundo do seu coração – habitar o meu?
Sim? Perfeito, cuide bem de tudo – a casa agora também é sua.
( Autor: Fillipo Rocha)
domingo, 29 de junho de 2014
Ondas, Martes e a Lua.
(Meio triste.)
Uma sala de TV e um abajur ligado, lâmpada amarela, uma lua branca lá fora.
Camuflada no sofá. Agarrando-se a ideia de que paixões são ondas. Que te visitam com intensidade e, assim que se quebram, por motivos que só elas conhecem, se vão. Se vão, para voltar em outras formas, parecidas, mas com diferentes composições. Salgadas por respingos de outras experiências.
É uma onda que sonda muitas praias, com vontade de permanecer, mas incapaz de cumprir sua vontade. Logo é levada pra longe, pelo sopro de uma brisa típica, pelo medo ou pelo inevitável mesmo. Como se o beijo na areia fosse a despedida.
(Ainda triste.)
Uma lua branca lá fora. E Marte tentando protagonizar o céu. Não há espaço para ele. Marte no céu é como a onda, que não dura. Marte, ondas e a paixão: perecíveis. Já que nada flui pra sempre. O romantismo barato do pra sempre. Que história boba foram inventar.
Que ondas só me tragam batidas rápidas no coração. Que a partida delas seja calma como tudo o que me orbita. Sem a violência de adeus ruidosos ou mudos, que esses opostos são sempre desequilíbrios cardíacos. Que venham Martes, distraindo a minha atenção eventualmente. Mas que nunca tirem o brilho dessa lua. De mim. Porque quando Marte se quebra, despedindo, sou a única coisa que sobra. E gosto do que sou, mesmo restando. Surfando em uma galáxia inteira e minha. Sem vai-e-vem. Tranqüila e bonita. Eu olhando estrelas que morrem todos os dias. E mesmo assim consigo sorrir daqui de cima.
(Por que mesmo triste, se a onda que recua, não apaga a lua e cede espaço para novos planetas?)
( Autor: Priscila Nicolielo )
sexta-feira, 27 de junho de 2014
(...) porque me sinto nesse direito de escrever, de reviver, de tentar tornar ficção essa nossa história que tantos dizem conhecer.
Se pelo menos tivéssemos sido corajosos, eu talvez não precisasse reabrir esse capítulo, não precisasse ter que passar os dias em busca da certeza de que você me perdoou e que, independente da brisa que hoje nos faz flutuar por céus de azuis diferentes, você reconhecesse por fim o imenso amor que senti pela ideia de nós dois voltando sempre à cauda daquele chafariz da praça onde um dia, com a aura das lenhas queimando-se nos fornos e nos pátios desconhecidos, você me roubou um beijo com o gosto da tangerina que você descascava com as mãos.
(Autor: Fellipe Fernades )
A Primeira
Que seja doce até tornarmo-nos amargos.
Poderia, nessa idade, viver apenas de memórias. Mas viveria apenas com a dela e com um espaço vazio.
E que forças são essas, que desprendem-me do chão no qual eu mesmo fiz de tudo para ser atado?
Lembro bem. Sentia que estava testemunhando o começo de algo, mas não sabia exatamente o quê. Era alegria sem nem saber. O amor tinha gosto de liberdade e cada palavra era o desprender de um nó. O tempo passava ligeiro, quase despercebido.
Antes, meu destino era qualquer um, e eu ia e vinha como se não saísse do lugar. Ela, mesmo sem querer, foi meu senso de orientação. E, ao mesmo tempo, foi minha tontura. Minha perda de consciência escolhida a dedo pelo coração.
Eu te conheci em uma vida que quis ter.
Sabe qual é a forma ideal de amor? Deixa. Eu mesmo respondo. É amar as estações da pessoa. Eu a amei desde as flores brotando até as folhas secas caindo. Amei seu amor errado. E cheio de certezas. Ela sempre olhava-me torto, quase que desconfiada. Era inimiga e aliada. A tênue linha de seus lábios era metáfora que separava o amor do ódio.
Disfuncional.
Vimos várias chances de regressos e retornos, mas deixamos que ficasse da forma como tinha ido embora.
Não há tempo para reconstruir-se. Apenas para interditar-se.
Ela será, eternamente, uma forma sossegada do passado.
Escrevo com a intenção e com a coragem de abandonar a poesia em mim para enxergá-la no mundo, novamente. Entenda. É justamente porque tu foste capaz de fazer-me feliz, que hoje, faz-me triste.
( Autor: Fernanda Novaes )
domingo, 27 de outubro de 2013
Querer viver sem nenhuma dor é querer viver sem amar.
Por bem, decidiram então pelo fim. Depois de ininterruptos cinco anos. O primeiro foi de tremedeira nas pernas. No segundo, atingiram o nirvana sexual. Com o terceiro veio junto o apartamento. No quarto, desejo mútuo por terceiros. Finalmente, o quinto mostrou que haviam se tornado dois. Definitivamente, duas novas perspectivas de vida.
Ela não pediu que ele ficasse. Ele chorou porque sempre foi o pilar sentimental do casal, e só por isso. Ela ficou com o apartamento. Ele com o labrador, com nome de ex-craque do Internacional. A última coisa que ele fez foi catar seus discos da Legião Urbana. Ela deu uma última olhada em volta. Ele entregou a chave. Ela deixou escapar que nunca vai esquecê-lo, de alguma forma. Ambos relembraram o plano de provar pra todo mundo que dava para coabitar romanticamente. A porta se fechou dando fim ao que não tinha fim.
Ela decidiu rever tudo. Jurou que seria eternamente fiel à liberdade. Agora, madruga suas noites em discotecas, na companhia de estranhos e envolta em novos braços peludos. Aos sábados, dorme até meio dia para esquecer a antiga rotina de acordar cedo, fazer jogging no Parcão e almoçar os bifes maravilhosos da mãe dele. Não assiste mais novela, passou a usar mais vestido, começou a ouvir Bossa Nova e cogita tatuar o pé.
Ele planejou uma revolução. Decidiu conhecer alguém novo, ligou para uma garota de programa. Hoje, não fica um dia sem compartilhar o violão com velhos amigos no Bar dos Podres. Invariavelmente, passa os domingos de chuva na cama, na companhia do Falcão, uma garrafa de Merlot e A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Perdeu seis quilos no último mês, deixa roupas penduradas, trocou de emprego e cogita passar o feriadão em Ilha Bela. E suas vidas continuam, sob nova direção.
Outro mês se foi, e eles não tem notícias e nem previsão de reprise. Ele é grato a si mesmo pela implosão das grades. Ela sente um mundo de possibilidades inflando ao seu redor. Ele pede aos amigos que digam a ela que até está bem, levando, obrigado. Ela não oculta uma certa tristeza no olhar na frente deles. Ele espera que ela esteja feliz e bem acompanhada, com alguém decente, que tenha ao menos o carinho que ela merece. Ela torce secretamente para que tão cedo ele não encontre uma garota “melhor”.
Querendo ou não, ele pensa nela de quando em quando. Toda noite, se aproxima do velho apartamento com o labrador Falcão, e questiona as luzes apagadas já na tarde-noite. Fica imaginando se aquela dor crônica no pescoço curou, se tem comido beterraba e controlado direitinho a tireoide, conforme prometeu que faria. Agora, desconfia que as novas garotas da sua vida serão meros passatempos. Sente falta de ouvir aquela voz meio gasguita. Chega a pegar o telefone. Não telefona.
Bem ou mal, ela sente sua ausência. Toda noite, evita estar em casa lembrando que o espaço do apartamento triplicou por um milhão. Sente falta de camisetas espalhadas aleatoriamente. Fica lembrando ele cozinhando espaguete al pesto, ou quando ele sentava na janela dedilhando “Tears In Heaven”, ou assistia o colorado comportadinho, roendo as unhas sem parar, os pés no sofá. Hoje, coleciona casos com cafajestes fajutos. Sente falta dos sermões que levava por andar descalça no chão frio. Verifica o funcionamento do telefone: tu-tu-tu.
Presos pela liberdade, prosseguem cada um na sua, conectados por um fio invisível que não conduz mais eletricidade. Um fio de saudade dissonante e a certeza de que, amor como aquele deles, não acontece no tocar de uma varinha de condão.
Resistiram sóbrios e sozinhos toda data comemorativa que pudesse aflorar qualquer restinho de contrição pela separação. Natal, réveillon, Valentine’s nos States, dia nacional dos namorados, sei lá, Halloween também – podia ser uma data sem nada a comemorar. Aliás, não perdiam uma festa a caráter naqueles Halloweens idiotas. Ela sentia vergonha vestindo diabinha, ele debochava dizendo que combinava, até.
A ausência um do outro já não incomodava como água oxigenada no joelho de feridas abertas. Embora os dois soubessem que o buraco estava lá, num cantinho vazio do coração e no confiscado dilatar de pupilas de cada um. Mesmo após treze meses.
Ainda assim, ela guinou 150 graus na profissão. Formou-se nutricionista e abriu seu consultório com a ajuda do pai. Ele, que ia improvisar uma banda para tocar na festa, nem compareceu à colação de grau. Ele terminou seu processo de reconstrução da autoestima indo até São Paulo assistir ao Radiohead. Ela ficou sabendo. Ambos mudaram e fizeram coisas que nunca imaginaram que fariam – coisas de solteiro, até porque nunca se imaginaram solteiros. Porém, as raras notícias já nem doíam tanto.
Hoje, ele resolveu iniciar processo seletivo para um novo relacionamento. Sexta-feira sim, e outra também, prepara jantares informais com meninas aspirantes a namorada. Belas garotas em versões loira, morena, castanho-claro, e até de cabelo pintado numa cor que ele se esforça para discernir. Muito embora com personalidades pouco aprazíveis ou simplesmente inconciliáveis. Não consegue descobrir a tal coisa que o desagrada. Ela vem à memória.
Agora, ela sente vontade de encerrar o balancete afetivo interno. Não sabe exato por onde começar, decerto a ânsia de inaugurar algo novo na direção do amor. Começa abrindo uma geladeira semi-abundante e termina logo ali, folheando páginas de um jornal de ontem. Questiona se não percebe os sinais ou se sua luz anda refletindo sombras demais. Aberta a sugestões, recusa o convite de um homem aparentemente mais maduro e educado do que seu ex. Ele ainda é parâmetro.
Separados, cada um em sua casa, simultaneamente os dois compartilham a impressão de não ver tão cedo uma placa informando para que lado se encontra um recomeço afetivo. Enquanto isso, o mundo não para de girar, sem gosto de morango mordido.
A gente nota que respirar vale a pena quando surpresas que estavam à espreita se revelam em esquinas, ou acontecimentos responsáveis por uma breve disritmia cardíaca saltam aos olhos como o farol de um pesqueiro na escuridão do mar.
Dois anos desde o traumático término, toda rima romântica, até as mais clichês, voltam a fazer sentido. Contrastando com as mais inferiores minúcias de um velho amor que há pouco andava em círculos, e que agora percorre uma longa estrada em linha reta – dessas que transformam todo velho amor em recordações de sorriso breve e silencioso.
Ela passou quatro meses tentando escapar do rapaz que agora chama carinhosamente de “môr”. Um cara mais jovem, que luta pela lei. Compensa sua pouca habilidade em manusear sentimentos com um espírito engraçado e positivista. Não consegue mirar nada além de uma taça meio cheia. Ela sente-se feliz e incompleta como toda mulher beirando os trinta. Seus lábios voltaram a se abrir involutariamente. Mas não pensa em dividir tarefas domésticas novamente. Espelha-se em Rita Lee e Roberto de Carvalho.
Ele se pegou matutando uma frase do Huxley dias atrás. Algo afirmando valer a pena enfrentar a tristeza para reconhecer a felicidade. Aplicou a teoria em sua nova gatinha que, diga-se, ainda não consegue chamar de “amor” ou coisa assim. Quando muito uma paixão. Arrebatadora, claro. Gamou nessa garota por acidente, como ele mesmo diz, em tom gracejador. Está pensando em casamento, mas acha que não devia. Se deita todas as noites com as mãos na nuca, com a intuição de estar bebendo o vinho da sua juventude. Seu braço arrepia toda vez que pensa na química sexual com a nova parceira.
Preciso contar a vocês que se viram, jantando em uma sexta-feira de céu estrelado na churrascaria Barranco. Ele e a namorada, ela e o namorado dela. Ambos chegaram a 200 mil batimentos por minuto ao trançar os olhos teimosos em olhar, mas nenhum dos dois lamentou, de alguma forma, estar sentado na mesa errada.
Ela ainda lembra dele quando alguém chupa seu dedão do pé. Ele se recorda dela toda vez que beberica um drinque com abacaxi e leite condensado. Os dois sabem que é perda de tempo tentar esquecer. Que sentir saudade não significa que melhoraram como pessoa, que agora magistralmente seus temperamentos são compatíveis e o correto seria viver aquilo tudo de novo, do êxtase à dor.
Significa apenas que foi bom, que foi inesquecível. E que qualquer amor que força as cordas vocais a produzirem um eu te amo não tem fim, mesmo acabando sempre do mesmo jeito, dividido por dois.
( Gabito Nunes )
Ela não pediu que ele ficasse. Ele chorou porque sempre foi o pilar sentimental do casal, e só por isso. Ela ficou com o apartamento. Ele com o labrador, com nome de ex-craque do Internacional. A última coisa que ele fez foi catar seus discos da Legião Urbana. Ela deu uma última olhada em volta. Ele entregou a chave. Ela deixou escapar que nunca vai esquecê-lo, de alguma forma. Ambos relembraram o plano de provar pra todo mundo que dava para coabitar romanticamente. A porta se fechou dando fim ao que não tinha fim.
Ela decidiu rever tudo. Jurou que seria eternamente fiel à liberdade. Agora, madruga suas noites em discotecas, na companhia de estranhos e envolta em novos braços peludos. Aos sábados, dorme até meio dia para esquecer a antiga rotina de acordar cedo, fazer jogging no Parcão e almoçar os bifes maravilhosos da mãe dele. Não assiste mais novela, passou a usar mais vestido, começou a ouvir Bossa Nova e cogita tatuar o pé.
Ele planejou uma revolução. Decidiu conhecer alguém novo, ligou para uma garota de programa. Hoje, não fica um dia sem compartilhar o violão com velhos amigos no Bar dos Podres. Invariavelmente, passa os domingos de chuva na cama, na companhia do Falcão, uma garrafa de Merlot e A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Perdeu seis quilos no último mês, deixa roupas penduradas, trocou de emprego e cogita passar o feriadão em Ilha Bela. E suas vidas continuam, sob nova direção.
(02)
Outro mês se foi, e eles não tem notícias e nem previsão de reprise. Ele é grato a si mesmo pela implosão das grades. Ela sente um mundo de possibilidades inflando ao seu redor. Ele pede aos amigos que digam a ela que até está bem, levando, obrigado. Ela não oculta uma certa tristeza no olhar na frente deles. Ele espera que ela esteja feliz e bem acompanhada, com alguém decente, que tenha ao menos o carinho que ela merece. Ela torce secretamente para que tão cedo ele não encontre uma garota “melhor”.
Querendo ou não, ele pensa nela de quando em quando. Toda noite, se aproxima do velho apartamento com o labrador Falcão, e questiona as luzes apagadas já na tarde-noite. Fica imaginando se aquela dor crônica no pescoço curou, se tem comido beterraba e controlado direitinho a tireoide, conforme prometeu que faria. Agora, desconfia que as novas garotas da sua vida serão meros passatempos. Sente falta de ouvir aquela voz meio gasguita. Chega a pegar o telefone. Não telefona.
Bem ou mal, ela sente sua ausência. Toda noite, evita estar em casa lembrando que o espaço do apartamento triplicou por um milhão. Sente falta de camisetas espalhadas aleatoriamente. Fica lembrando ele cozinhando espaguete al pesto, ou quando ele sentava na janela dedilhando “Tears In Heaven”, ou assistia o colorado comportadinho, roendo as unhas sem parar, os pés no sofá. Hoje, coleciona casos com cafajestes fajutos. Sente falta dos sermões que levava por andar descalça no chão frio. Verifica o funcionamento do telefone: tu-tu-tu.
Presos pela liberdade, prosseguem cada um na sua, conectados por um fio invisível que não conduz mais eletricidade. Um fio de saudade dissonante e a certeza de que, amor como aquele deles, não acontece no tocar de uma varinha de condão.
(03)
Resistiram sóbrios e sozinhos toda data comemorativa que pudesse aflorar qualquer restinho de contrição pela separação. Natal, réveillon, Valentine’s nos States, dia nacional dos namorados, sei lá, Halloween também – podia ser uma data sem nada a comemorar. Aliás, não perdiam uma festa a caráter naqueles Halloweens idiotas. Ela sentia vergonha vestindo diabinha, ele debochava dizendo que combinava, até.
A ausência um do outro já não incomodava como água oxigenada no joelho de feridas abertas. Embora os dois soubessem que o buraco estava lá, num cantinho vazio do coração e no confiscado dilatar de pupilas de cada um. Mesmo após treze meses.
Ainda assim, ela guinou 150 graus na profissão. Formou-se nutricionista e abriu seu consultório com a ajuda do pai. Ele, que ia improvisar uma banda para tocar na festa, nem compareceu à colação de grau. Ele terminou seu processo de reconstrução da autoestima indo até São Paulo assistir ao Radiohead. Ela ficou sabendo. Ambos mudaram e fizeram coisas que nunca imaginaram que fariam – coisas de solteiro, até porque nunca se imaginaram solteiros. Porém, as raras notícias já nem doíam tanto.
(04)
Hoje, ele resolveu iniciar processo seletivo para um novo relacionamento. Sexta-feira sim, e outra também, prepara jantares informais com meninas aspirantes a namorada. Belas garotas em versões loira, morena, castanho-claro, e até de cabelo pintado numa cor que ele se esforça para discernir. Muito embora com personalidades pouco aprazíveis ou simplesmente inconciliáveis. Não consegue descobrir a tal coisa que o desagrada. Ela vem à memória.
Agora, ela sente vontade de encerrar o balancete afetivo interno. Não sabe exato por onde começar, decerto a ânsia de inaugurar algo novo na direção do amor. Começa abrindo uma geladeira semi-abundante e termina logo ali, folheando páginas de um jornal de ontem. Questiona se não percebe os sinais ou se sua luz anda refletindo sombras demais. Aberta a sugestões, recusa o convite de um homem aparentemente mais maduro e educado do que seu ex. Ele ainda é parâmetro.
Separados, cada um em sua casa, simultaneamente os dois compartilham a impressão de não ver tão cedo uma placa informando para que lado se encontra um recomeço afetivo. Enquanto isso, o mundo não para de girar, sem gosto de morango mordido.
(05)
A gente nota que respirar vale a pena quando surpresas que estavam à espreita se revelam em esquinas, ou acontecimentos responsáveis por uma breve disritmia cardíaca saltam aos olhos como o farol de um pesqueiro na escuridão do mar.
Dois anos desde o traumático término, toda rima romântica, até as mais clichês, voltam a fazer sentido. Contrastando com as mais inferiores minúcias de um velho amor que há pouco andava em círculos, e que agora percorre uma longa estrada em linha reta – dessas que transformam todo velho amor em recordações de sorriso breve e silencioso.
Ela passou quatro meses tentando escapar do rapaz que agora chama carinhosamente de “môr”. Um cara mais jovem, que luta pela lei. Compensa sua pouca habilidade em manusear sentimentos com um espírito engraçado e positivista. Não consegue mirar nada além de uma taça meio cheia. Ela sente-se feliz e incompleta como toda mulher beirando os trinta. Seus lábios voltaram a se abrir involutariamente. Mas não pensa em dividir tarefas domésticas novamente. Espelha-se em Rita Lee e Roberto de Carvalho.
Ele se pegou matutando uma frase do Huxley dias atrás. Algo afirmando valer a pena enfrentar a tristeza para reconhecer a felicidade. Aplicou a teoria em sua nova gatinha que, diga-se, ainda não consegue chamar de “amor” ou coisa assim. Quando muito uma paixão. Arrebatadora, claro. Gamou nessa garota por acidente, como ele mesmo diz, em tom gracejador. Está pensando em casamento, mas acha que não devia. Se deita todas as noites com as mãos na nuca, com a intuição de estar bebendo o vinho da sua juventude. Seu braço arrepia toda vez que pensa na química sexual com a nova parceira.
(06)
Preciso contar a vocês que se viram, jantando em uma sexta-feira de céu estrelado na churrascaria Barranco. Ele e a namorada, ela e o namorado dela. Ambos chegaram a 200 mil batimentos por minuto ao trançar os olhos teimosos em olhar, mas nenhum dos dois lamentou, de alguma forma, estar sentado na mesa errada.
Ela ainda lembra dele quando alguém chupa seu dedão do pé. Ele se recorda dela toda vez que beberica um drinque com abacaxi e leite condensado. Os dois sabem que é perda de tempo tentar esquecer. Que sentir saudade não significa que melhoraram como pessoa, que agora magistralmente seus temperamentos são compatíveis e o correto seria viver aquilo tudo de novo, do êxtase à dor.
Significa apenas que foi bom, que foi inesquecível. E que qualquer amor que força as cordas vocais a produzirem um eu te amo não tem fim, mesmo acabando sempre do mesmo jeito, dividido por dois.
( Gabito Nunes )
sexta-feira, 14 de junho de 2013
Ninguém escreve bem ou mal, escreve o que sente. E nem sempre o que a gente sente é bonito.
No último segundo você acha o ar, retoma o fôlego depois de se debater tanto. Por dentro tudo treme, os ossos doem implorando por descanso. Você passa a palma das mãos sobre os olhos apertando, tentando dali retirar algum entendimento, alguma explicação. Tanto tempo se passou. O medo se acumulou. Pilhas e pilhas de abandono. Uma coleção inteira e bem sofisticada chamada solidão. Mas finalmente você respira. ´Você já passou por isso tantas vezes que nem mais se espanta. Recosta teu corpo no velho sofá, ascende um cigarro, olha de longe a garrafa na estante e exercendo uma força descomunal declina seu corpo pra frente. Acaba mesmo ficando ali, não se mexe, só desloca a estrutura carnal deixando a pobre alma exausta no sofá. E a unica pergunta que se repete em sua mente é - “Será que agora vai ser diferente?
( Elisa Barlett )
terça-feira, 23 de abril de 2013
Pedi pro tempo me ajudar, ele começou a rir e me ofereceu uma bebida.
- Como andas?
- Com as pernas.
- Interessante.
- O quê?
- Teu uso da ironia para esquecer a dor.
( Camila Reis )
( Título: Soulstripper )
E mesmo sorrindo por ai, cada um sabe a falta que o outro faz.
Eles terminam, mas ainda se amam, por vingança ou mera vaidade, ele decide se entregar a primeira que passa pra mostrar o quando aquilo não o afeta, mas o afeta, e nem percebe que está procurando uma história que não convêm pra nenhum dos lados. Ela sente uma certa inveja por saber que ainda sente algo por alguém que parece não se importar com isso, mas agora ele está com outra, e ela finalmente percebe seu coração fora do lugar. (...) Imbecil. Vive com a certeza de que deixou pra traz não só um relacionamento, mas a certeza de uma felicidade absoluta. Ele nunca disse a falta que ela faz, a história sempre se conclui com dois idiotas orgulhosos que vivem na saudade, mas não admitem o quanto precisam um do outro.
( Autor Desconhecido )
( Título: Tati Bernardi )
domingo, 13 de janeiro de 2013
Inteira.
Imprimo o que me contém.
Não espere que eu seja
contida. Minhas emoções extravasam minhas bordas, borbulham na superfície,
transbordam de mim.
Expresso o que me toca. Não me peça pra ser impassível. Sou feita de
sentir. E meu sentir faz bagunça, sobe no palco, salta do peito. Gosto de
viver assim: des-me-di-da-men-te-a-pai-xo-na-da.
Quisera eu, ser feita de silêncios. Daqueles que restauram e espelham. Daqueles que traduzem. Tem muito barulho por
aqui. Tem o riso solto, a alegria escancarada, a música alta. Tem a
vontade de realizar e uma implicância danada com essa coisa de se bastar. Uma
fé infantil no futuro.
Sou feliz e grata com a vida que tenho mas vivo seguindo o
conselho de Fernando Pessoa: não acostumo com o que não me faz feliz e
revolto-me quando julgo necessário.
Não sei fingir sentimentos. Não sei ensaiar simpatia. Ainda não aprendi
a ignorar o que me ofende, me acomodar com o que incomoda, usar o silêncio como
suposta superioridade e pseudo-atestado de controle. Jamais conseguiria, vivo à flor da pele, obedeço o coração. Meu riso
será indecente quando surgido, meu questionamento será inevitável quando
provocado, meu choro, um convite: me conheça.
Me faça surpresas, me leve para ver o pôr do sol. Sou cativada por
detalhes, uma encantada por pequenices. Me escreva qualquer frase que combine
com o seu querer, apareça do nada e me presenteie com cheiros, com cores, com
vinho, com móbiles e palavras. Não é difícil me fazer sorrir.
Não me queira cética. Acredito em milagres, em
intuições, em abraços e em declarações de amor. Desacreditar seria
desistir, seria entristecer. E eu recuso todo e qualquer convite da tristeza.
Alegria é o que me inspira. Emoção o que me traduz. Acreditar é o que explica a
minha vida.
Me faça
convites, me conte uma história. Vamos deitar numa pedra e admirar o céu sem
procurar saber da hora. Meu relógio pára numa prosa em boa companhia.
Espere de mim ideias, perguntas e também respostas. Respostas gentis,
atenciosas, debochadas ou tortas. Tem opção para todos os gostos e
reciprocidade para todos os gestos. Mas não espere de mim amarguras. Não
confunda a minha receita. Tenho doses de doçura e pimenta para muitas porções,
mas nunca cultivei o rancor.
Espere de mim o perdão, o pedido e o concedido. Sei reconhecer minhas falhas
e acredito em qualquer um até mesmo depois que me prove o contrário. Sei dar
segunda chance a quem merece, a quem faz valer a caminhada. E assumo todos os
riscos. Prefiro assim do que me confortar com serás. Sou adepta do tentar e
também do refazer.
Conte
comigo, te dou meu ombro e minha sinceridade. Chegue mais perto, pegue na minha
mão. Divido meus sonhos contigo, te empresto meus discos e meus livros. Me dê
conselhos, me dê espaço. Repouso no teu colo e te conto a minha história. Tenho
essa mania errante de me espalhar por aí.
Não tenho muita paciência, releve esse meu pesar. Não tenho vocação pra
viver a conta-gotas. Me instigue mas não me provoque tanto. Me queira serena,
quieta, satisfeita. Tenho febres elevadas, desejos insaciáveis, tenho
coragens infinitas quando desafiada.
Tenho a mania de deixar o desaforo da porta pra fora. Sabe aquele texto
da Martha Medeiros que diz: "Não grite comigo. Tenho o péssimo hábito de
revidar"? Pois é. Se eu pudesse, estenderia a mão e diria a autora: bate
aqui. Meu maior defeito talvez seja este. Minha defesa primeira.
Conte com a minha bondade, abrace o meu afeto mas não subestime a minha
mansidão. Não apronte comigo contando com a minha suavidade. Ainda não
aprendi com a sabedoria daqueles que deixam pra lá, não compactuo com aqueles
que se contém corroendo por dentro. Nessas horas extravio a educação bonita que
mamãe me deu e sigo concordando que respeito é pra quem tem.
Pareço vento e de repente eu seja mesmo. Mas veja, sou simples de se
capturar. Meu parecer talvez seja este: eu simpatizo com os urgentes e me
recolho na intensidade. Suplico a paciência e enlouqueço na espera. O talvez
não me responde, o quase não me convence, o "não sei" me sufoca o
peito e me arde toda.
Eu vivo é de quereres, insaciáveis e emergentes.
Reciclo minhas coragens e não confiro a temperatura da água. Eu mergulho.
Inteira. E descubro que sei nadar.
( Yohana Sanfer )
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
A paixão nos abre caminhos. O amor nos leva para casa.
Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras, alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho. E que esse alguém me peça para que eu nunca mude, para que eu nunca cresça, para que eu seja sempre eu mesmo.
( Mário Quintana )
( Título: Cah Morandi )
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
Engoli tantas lágrimas que acabei me afogando por dentro.
Naquele instante me calei,
não disse uma palavra se quer,
mas meu coração gritava.
não disse uma palavra se quer,
mas meu coração gritava.
( Gabriel Lopes )
( Título: João Pedro Bueno )
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