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" (...) Por que no fundo eu sei que a realidade que eu sonhava afundou num copo de cachaça e virou utopia. "





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quarta-feira, 29 de abril de 2015

Sentir sem conseguir provar.


Querer é um direito seu, ter é um privilégio. Até que ponto vale a pena fazer a vida parar só para que ela aconteça exatamente do jeito que deseja? “Queria outra coisa”, “queria de outra forma”, “queria outra pessoa”. E quem somos nós para nos atrevermos a esperar que a vida seja exatamente do jeito que desejamos?
A vontade de ser feliz é a mesma que pode nos deixar mais tristes. Isso tem a ver com a frustração que sentimos através das expectativas que alimentamos. A busca pela “pessoa ideal” – aliás, ela existe? – e a espera para que apareça alguém do jeitinho que você sempre quis são só armas contra a sua própria vida.
Na espera de uma boa oportunidade nós perdemos as melhores possibilidades. É louco como os padrões e os clichês nos cegam. Gostamos de compartilhar frases sobre “o que realmente importa na vida” mas quando a vida é a nossa, queremos mesmo é que ela aconteça do jeito que desejamos, ignorando o jeito que merecemos e que precisamos.
Sabe, é que talvez ele não tenha um corpo de invejar quando fica sem camiseta na praia, mas, exatamente ele, possa ser quem não liga pra sua estria ou pra sua celulite em que gasta 70% do salário para eliminar. Talvez ele nem saiba exatamente o que é isso. Mas você prefere colocá-lo num perfil que não faz o seu tipo, então o descarta. Talvez ele não seja tão bom com palavras e tenha uma certa dificuldade em organizar pensamentos que resultem em frases bonitas, mas sabe, talvez ele seja quem se importa em te mandar mensagens surpresas durante o seu dia, ainda que não tenha nada de diferente para contar além de te lembrar como gosta de você.
Talvez você esteja exigindo demais. Talvez você esteja se colocando num patamar alto demais pra ficar. Talvez você não esteja se enxergando o bastante para valorizar quem consegue te valorizar mesmo você fazendo questão de mostrar seus defeitos. Você sabe como é difícil ter alguém? Você lembra como foi quando gostou sem que gostassem de você?
Do que você precisa? De uma foto a dois com mil curtidas ou de um dia com mil risadas?O que te faz bem? Porque se emociona com os filmes? Porque torce para o mocinho na novela?
Talvez você esteja exigindo demais. E entenda, é claro que não é para se obrigar a sentir o que não consegue, mas bem que você pode direcionar sua energia para quem te dedica parte da própria vida. Não seja mais uma pessoa entre tantas outras que ignoram quando lhe são reveladas amor. Não seja também quem mente dizendo “eu também”, seja apenas quem você gostaria que fossem com você, goste como gostaria que gostassem de você.
Presta atenção em quem te dá atenção sem que você precise clamar por atenção.
Querer é um direito, ter é um privilégio e aceitar é o caminho.
(Autor: Márcio Rodrigues )

Será que eu vejo apenas o que você não vê?

( Imagem: Ana Cañas )
Você sairá com uma sequência de moças bonitinhas que provocarão em você apenas decepção e tédio. Nenhuma delas – lembre-se, isso é uma profecia –, nenhuma delas causará as sensações que eu causei. Você procurará minha boca em todas elas, minha pele em todas elas, minha umidade eterna em todas elas, meus gemidos em todas elas sem encontrar. Você irá achá-las sempre pouco estimulantes, pouco voluptuosas, pouco ativas, pouco criativas, pouco carnudas, pouco macias, pouco soltas, pouco inteligentes, pouco tudo. Elas serão sempre menos do que você espera – porque elas não são eu.
Mas nem tudo está perdido: qualquer uma delas pode ser cômoda o bastante para ficar com você. Eu posso te ver dentro de dez anos numa sala menor do que você queria, mas ainda assim uma sala bem montada, com sua TV imensa e sua esposa mansa com quem você terá um sexo honesto e confortável. E, tão claro quanto vejo minhas mãos agora, posso ver que você vai sonhar em suar comigo enquanto dorme com ela.
Nas suas insônias, que serão muitas – lembre-se, isso é uma profecia –, você vai pensar o que aconteceria se você tivesse ficado comigo e para quais lugares teríamos viajado juntos e quantas coisas novas você teria aprendido e quais comentários mágicos eu teria feito nas madrugadas só nossas e quantos bons-dias teríamos nos desejado um dentro do outro. Sua fome por mim amanhã será maior que o seu medo hoje, bem maior. Nessas horas e em muitas outras – lembre-se, isso é uma profecia –, você vai desejar me escrever, me ver, ter alguma resposta minha, mas já será tarde para isso.
Porque há mulheres que marcam os homens e há mulheres que ficam com eles – e eu pertenço ao primeiro time. E você, ao time dos que não são viscerais o bastante para quebrarem tolas maldições e amargas profecias.

( Autor: Stella Florence )
( Título: Ana Cañas )

ecos seus nos nós nús meus.



Me chama de louca
mas não vê que eu faço
amor com as estrelas.
Carrego planetas certezas e ossos.
Eu gosto do gosto das coisas
que ninguém explica.
Felina nítida e cruel.
Um beijo na boca sem dó.
Fala de amor e é só dor pra dar;
o mel do meu melhor
que nu pretende um nó.
Escolho os que me odeiam,
aos que fingem me ama,r
aos que vão para ficar.
Só quero ser o que não ser será.
Nenhuma e mil;
ninguém e todas;
a puta que pariu
que cala nas bocas.
Voa voa voa.
Louca louca louca!
Voa voa voa.
Louca louca louca!


( Autor: Ana Cañas)

terça-feira, 2 de setembro de 2014

O que você precisa saber antes de morar em mim.


Se os meus olhos são as janelas da minha alma, minha boca é a porta e, o beijo que acabo de te dar – a chave. Peço que repare na bagunça e pense, pense muito bem antes de entrar. A casa é pequena, mas comporta muitas coisas. Os cômodos do meu coração estão abarrotados de tentativas, repletos de receios, e guardam pilhas intermináveis das minhas mais vulneráveis expectativas.
Agora me responda: Tem certeza que quer entrar? Se a resposta for positiva, peço que entre com calma. Na sala do meu coração você encontrará centenas de filmes, que me fizeram rir e chorar – no abrigo de outros braços. Músicas que embalaram altos e baixos – com outros amores. Muitas fotos de viagens que fiz e coisas que quis, mas que hoje não passam de antigos e distantes rumores.
Na cozinha você sentirá o cheiro de muitos jantares. Temperos que eu costumava adorar e hoje já não posso suportar. Velas apagadas pela ação implacável do tempo. Talheres que alimentaram outras bocas e taças que embriagaram outros corpos.
Meu banheiro exala o cheiro de tantos perfumes, sabonetes e loções – quanto de decepções. Fios de cabelos distintos entopem o ralo do esgoto, enquanto escovas de dente diversas ocupam o chão. A água do meu chuveiro já lavou outros suores e o espelho sobre a pia já refletiu dias melhores.
O quarto do meu coração é o cômodo mais bagunçado, guarda tantas lembranças boas – quanto amores dilacerados. Nele você encontrará todo o prazer que dei e recebi. Todas as lágrimas que derramei e todas as alegrias que senti. Vários livros de cabeceira. Roupas por todos os lados. Noites em que fui feliz, e outras em que desejei dormir e nunca mais ter acordado.
Agora preciso que me diga: Tem certeza que quer continuar? Sim? Então caminhe até o quintal. Lá você verá quem fui e quem sou. Os espinhos que colhi, quando flores plantei e os fracassos que colhi – quando esperanças semeei. Mas verá também um pedaço de terra fértil, que resistiu bravamente e, anda precisando – urgentemente – de água, adubo, calor e amor.
Agora me responda com toda a sinceridade que reside em ti: Deseja assumir a responsabilidade de revitalizar a minha horta? Quer me ajudar a varrer o chão, lavar os pratos e pintar as paredes? Está disponível para me auxiliar na troca dos móveis e com a nova decoração? Carregará comigo todo o lixo para fora? Quer – do fundo do seu coração – habitar o meu?
Sim? Perfeito, cuide bem de tudo – a casa agora também é sua.

( Autor: Fillipo Rocha)

Meu coração é cego, surdo e mudo


Meu coração é cego. Cansou-se de ver a falsidade estampada nos olhos de quem confiou e – por consequência –, já não recorda-se de quantas vezes tropeçou, caiu e levantou-se. Meu coração – por não mais enxergar – já não reconhece a face da maldade, já não vê a silhueta do pecado e, constantemente, é seduzido, enganado e abandonado. Já não enxerga a certeza, nem qualquer tipo de dúvida. Não mais enxerga os caminhos, nem tampouco os empecilhos. Já não consegue manter-se – rigorosamente –, na linha reta dos teus antigos trilhos.
Meu coração é surdo. Ouviu tantas falsas promessas que, não suportou e, mergulhou num silêncio profundo. Meu coração já não escuta mentiras, mas também não ouve verdades. Já não escuta o próprio choro e, mal lembra-se das próprias gargalhadas. Já não escuta reclamações, mas – há tempos – não escuta o som de cada uma das tuas emoções. Meu coração recorda-se do tom da primeira voz, da segunda, terceira e, de todas as outras que as sucederam. Meu coração nunca esqueceu um “eu te amo” e, jamais esquecerá, as dores que – então – apareceram.
Meu coração é mudo. Tantas vezes disse que amava e não foi correspondido, tantas vezes gritou e não foi escutado que, hoje resta-lhe o silêncio e, tudo o que isso tem acarretado. Não diz o que julga importante, mas, por outro lado, também não diz o que não tem serventia. Não canta as verdades da tua razão, nem as tristezas do teu dia-a-dia. Não julga-se apressado, mas, ainda que doa na alma, já não pode pedir calma. Não consegue – ao menos com palavras – expressar tudo o que traz consigo. Não pode pedir perdão, nem pode pedir abrigo. Tem vontade de falar, mas ao lembrar-se do passado, pensa – entristecido – que é melhor manter-se calado.
Meu coração sente. Sente a falta de um grande amor e a saudade de outros – e bons – tempos. Sente as marcas que nele ficaram, de outros – muitas vezes tristes – momentos. Sente angústias e muitas dores, vontades e arrependimentos. Sente na pele o desejo de fugir, tanto do peito que o segura, quanto do mundo que o aprisiona. Sente medo de não encontrar, o amor que um dia teve e, ainda o emociona. Sente frio durante a noite e, durante a madrugada, sente falta de uma companhia – que mantenha a solidão sedada. Sente falta do calor que pode morar num abraço e, de tanto procurar, sente um enorme cansaço. Sente, por fim, um sincero desejo de mudança, do estado que agora encontra-se, para algum que ressuscite a esperança.
Meu coração é cego, surdo e mudo. Em compensação, sente absolutamente tudo.

( Autor: Fillipo Rocha)

domingo, 29 de junho de 2014

Ondas, Martes e a Lua.



(Meio triste.)
Uma sala de TV e um abajur ligado, lâmpada amarela, uma lua branca lá fora.
Camuflada no sofá. Agarrando-se a ideia de que paixões são ondas. Que te visitam com intensidade e, assim que se quebram, por motivos que só elas conhecem, se vão. Se vão, para voltar em outras formas, parecidas, mas com diferentes composições. Salgadas por respingos de outras experiências.
É uma onda que sonda muitas praias, com vontade de permanecer, mas incapaz de cumprir sua vontade. Logo é levada pra longe, pelo sopro de uma brisa típica, pelo medo ou pelo inevitável mesmo. Como se o beijo na areia fosse a despedida.
(Ainda triste.)
Uma lua branca lá fora. E Marte tentando protagonizar o céu. Não há espaço para ele. Marte no céu é como a onda, que não dura. Marte, ondas e a paixão: perecíveis. Já que nada flui pra sempre. O romantismo barato do pra sempre. Que história boba foram inventar.
Que ondas só me tragam batidas rápidas no coração. Que a partida delas seja calma como tudo o que me orbita. Sem a violência de adeus ruidosos ou mudos, que esses opostos são sempre desequilíbrios cardíacos. Que venham Martes, distraindo a minha atenção eventualmente. Mas que nunca tirem o brilho dessa lua. De mim. Porque quando Marte se quebra, despedindo, sou a única coisa que sobra. E gosto do que sou, mesmo restando. Surfando em uma galáxia inteira e minha. Sem vai-e-vem. Tranqüila e bonita. Eu olhando estrelas que morrem todos os dias. E mesmo assim consigo sorrir daqui de cima.
(Por que mesmo triste, se a onda que recua, não apaga a lua e cede espaço para novos planetas?)

( Autor: Priscila Nicolielo )

sexta-feira, 27 de junho de 2014

(...) porque me sinto nesse direito de escrever, de reviver, de tentar tornar ficção essa nossa história que tantos dizem conhecer.

Se pelo menos tivéssemos sido corajosos, eu talvez não precisasse reabrir esse capítulo, não precisasse ter que passar os dias em busca da certeza de que você me perdoou e que, independente da brisa que hoje nos faz flutuar por céus de azuis diferentes, você reconhecesse por fim o imenso amor que senti pela ideia de nós dois voltando sempre à cauda daquele chafariz da praça onde um dia, com a aura das lenhas queimando-se nos fornos e nos pátios desconhecidos, você me roubou um beijo com o gosto da tangerina que você descascava com as mãos.

(Autor: Fellipe Fernades )

A Primeira



Que seja doce até tornarmo-nos amargos.
Poderia, nessa idade, viver apenas de memórias. Mas viveria apenas com a dela e com um espaço vazio.
E que forças são essas, que desprendem-me do chão no qual eu mesmo fiz de tudo para ser atado?
Lembro bem. Sentia que estava testemunhando o começo de algo, mas não sabia exatamente o quê. Era alegria sem nem saber. O amor tinha gosto de liberdade e cada palavra era o desprender de um nó. O tempo passava ligeiro, quase despercebido.
Antes, meu destino era qualquer um, e eu ia e vinha como se não saísse do lugar. Ela, mesmo sem querer, foi meu senso de orientação. E, ao mesmo tempo, foi minha tontura. Minha perda de consciência escolhida a dedo pelo coração.
Eu te conheci em uma vida que quis ter.
Sabe qual é a forma ideal de amor? Deixa. Eu mesmo respondo. É amar as estações da pessoa. Eu a amei desde as flores brotando até as folhas secas caindo. Amei seu amor errado. E cheio de certezas. Ela sempre olhava-me torto, quase que desconfiada. Era inimiga e aliada. A tênue linha de seus lábios era metáfora que separava o amor do ódio.
Disfuncional.
Vimos várias chances de regressos e retornos, mas deixamos que ficasse da forma como tinha ido embora.
Não há tempo para reconstruir-se. Apenas para interditar-se.
Ela será, eternamente, uma forma sossegada do passado.


Escrevo com a intenção e com a coragem de abandonar a poesia em mim para enxergá-la no mundo, novamente. Entenda. É justamente porque tu foste capaz de fazer-me feliz, que hoje, faz-me triste.

( Autor: Fernanda Novaes )

domingo, 18 de maio de 2014

Amor platônico é coisa de iniciante.


Eu não me contento com pouco (Não mais). Eu tenho muito dentro de mim e não estou a fim de dar sem receber nada em troca. Essa coisa bonita de dar sem receber funciona muito bem em rezas, histórias de santos e demais evoluídos do planeta. Mas eu não moro em igreja, não sou santa, não evoluí até esse ponto e só vou te dar se você me der também

Fernanda Mello )

domingo, 27 de outubro de 2013

Querer viver sem nenhuma dor é querer viver sem amar.

Por bem, decidiram então pelo fim. Depois de ininterruptos cinco anos. O primeiro foi de tremedeira nas pernas. No segundo, atingiram o nirvana sexual. Com o terceiro veio junto o apartamento. No quarto, desejo mútuo por terceiros. Finalmente, o quinto mostrou que haviam se tornado dois. Definitivamente, duas novas perspectivas de vida.

Ela não pediu que ele ficasse. Ele chorou porque sempre foi o pilar sentimental do casal, e só por isso. Ela ficou com o apartamento. Ele com o labrador, com nome de ex-craque do Internacional. A última coisa que ele fez foi catar seus discos da Legião Urbana. Ela deu uma última olhada em volta. Ele entregou a chave. Ela deixou escapar que nunca vai esquecê-lo, de alguma forma. Ambos relembraram o plano de provar pra todo mundo que dava para coabitar romanticamente. A porta se fechou dando fim ao que não tinha fim.

Ela decidiu rever tudo. Jurou que seria eternamente fiel à liberdade. Agora, madruga suas noites em discotecas, na companhia de estranhos e envolta em novos braços peludos. Aos sábados, dorme até meio dia para esquecer a antiga rotina de acordar cedo, fazer jogging no Parcão e almoçar os bifes maravilhosos da mãe dele. Não assiste mais novela, passou a usar mais vestido, começou a ouvir Bossa Nova e cogita tatuar o pé.

Ele planejou uma revolução. Decidiu conhecer alguém novo, ligou para uma garota de programa. Hoje, não fica um dia sem compartilhar o violão com velhos amigos no Bar dos Podres. Invariavelmente, passa os domingos de chuva na cama, na companhia do Falcão, uma garrafa de Merlot e A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Perdeu seis quilos no último mês, deixa roupas penduradas, trocou de emprego e cogita passar o feriadão em Ilha Bela. E suas vidas continuam, sob nova direção.

(02)

Outro mês se foi, e eles não tem notícias e nem previsão de reprise. Ele é grato a si mesmo pela implosão das grades. Ela sente um mundo de possibilidades inflando ao seu redor. Ele pede aos amigos que digam a ela que até está bem, levando, obrigado. Ela não oculta uma certa tristeza no olhar na frente deles. Ele espera que ela esteja feliz e bem acompanhada, com alguém decente, que tenha ao menos o carinho que ela merece. Ela torce secretamente para que tão cedo ele não encontre uma garota “melhor”.

Querendo ou não, ele pensa nela de quando em quando. Toda noite, se aproxima do velho apartamento com o labrador Falcão, e questiona as luzes apagadas já na tarde-noite. Fica imaginando se aquela dor crônica no pescoço curou, se tem comido beterraba e controlado direitinho a tireoide, conforme prometeu que faria. Agora, desconfia que as novas garotas da sua vida serão meros passatempos. Sente falta de ouvir aquela voz meio gasguita. Chega a pegar o telefone. Não telefona.

Bem ou mal, ela sente sua ausência. Toda noite, evita estar em casa lembrando que o espaço do apartamento triplicou por um milhão. Sente falta de camisetas espalhadas aleatoriamente. Fica lembrando ele cozinhando espaguete al pesto, ou quando ele sentava na janela dedilhando “Tears In Heaven”, ou assistia o colorado comportadinho, roendo as unhas sem parar, os pés no sofá. Hoje, coleciona casos com cafajestes fajutos. Sente falta dos sermões que levava por andar descalça no chão frio. Verifica o funcionamento do telefone: tu-tu-tu.

Presos pela liberdade, prosseguem cada um na sua, conectados por um fio invisível que não conduz mais eletricidade. Um fio de saudade dissonante e a certeza de que, amor como aquele deles, não acontece no tocar de uma varinha de condão.

(03)

Resistiram sóbrios e sozinhos toda data comemorativa que pudesse aflorar qualquer restinho de contrição pela separação. Natal, réveillon, Valentine’s nos States, dia nacional dos namorados, sei lá, Halloween também – podia ser uma data sem nada a comemorar. Aliás, não perdiam uma festa a caráter naqueles Halloweens idiotas. Ela sentia vergonha vestindo diabinha, ele debochava dizendo que combinava, até.

A ausência um do outro já não incomodava como água oxigenada no joelho de feridas abertas. Embora os dois soubessem que o buraco estava lá, num cantinho vazio do coração e no confiscado dilatar de pupilas de cada um. Mesmo após treze meses.

Ainda assim, ela guinou 150 graus na profissão. Formou-se nutricionista e abriu seu consultório com a ajuda do pai. Ele, que ia improvisar uma banda para tocar na festa, nem compareceu à colação de grau. Ele terminou seu processo de reconstrução da autoestima indo até São Paulo assistir ao Radiohead. Ela ficou sabendo. Ambos mudaram e fizeram coisas que nunca imaginaram que fariam – coisas de solteiro, até porque nunca se imaginaram solteiros. Porém, as raras notícias já nem doíam tanto.

(04)

Hoje, ele resolveu iniciar processo seletivo para um novo relacionamento. Sexta-feira sim, e outra também, prepara jantares informais com meninas aspirantes a namorada. Belas garotas em versões loira, morena, castanho-claro, e até de cabelo pintado numa cor que ele se esforça para discernir. Muito embora com personalidades pouco aprazíveis ou simplesmente inconciliáveis. Não consegue descobrir a tal coisa que o desagrada. Ela vem à memória.

Agora, ela sente vontade de encerrar o balancete afetivo interno. Não sabe exato por onde começar, decerto a ânsia de inaugurar algo novo na direção do amor. Começa abrindo uma geladeira semi-abundante e termina logo ali, folheando páginas de um jornal de ontem. Questiona se não percebe os sinais ou se sua luz anda refletindo sombras demais. Aberta a sugestões, recusa o convite de um homem aparentemente mais maduro e educado do que seu ex. Ele ainda é parâmetro.

Separados, cada um em sua casa, simultaneamente os dois compartilham a impressão de não ver tão cedo uma placa informando para que lado se encontra um recomeço afetivo. Enquanto isso, o mundo não para de girar, sem gosto de morango mordido.

(05)

A gente nota que respirar vale a pena quando surpresas que estavam à espreita se revelam em esquinas, ou acontecimentos responsáveis por uma breve disritmia cardíaca saltam aos olhos como o farol de um pesqueiro na escuridão do mar.

Dois anos desde o traumático término, toda rima romântica, até as mais clichês, voltam a fazer sentido. Contrastando com as mais inferiores minúcias de um velho amor que há pouco andava em círculos, e que agora percorre uma longa estrada em linha reta – dessas que transformam todo velho amor em recordações de sorriso breve e silencioso.

Ela passou quatro meses tentando escapar do rapaz que agora chama carinhosamente de “môr”. Um cara mais jovem, que luta pela lei. Compensa sua pouca habilidade em manusear sentimentos com um espírito engraçado e positivista. Não consegue mirar nada além de uma taça meio cheia. Ela sente-se feliz e incompleta como toda mulher beirando os trinta. Seus lábios voltaram a se abrir involutariamente. Mas não pensa em dividir tarefas domésticas novamente. Espelha-se em Rita Lee e Roberto de Carvalho.

Ele se pegou matutando uma frase do Huxley dias atrás. Algo afirmando valer a pena enfrentar a tristeza para reconhecer a felicidade. Aplicou a teoria em sua nova gatinha que, diga-se, ainda não consegue chamar de “amor” ou coisa assim. Quando muito uma paixão. Arrebatadora, claro. Gamou nessa garota por acidente, como ele mesmo diz, em tom gracejador. Está pensando em casamento, mas acha que não devia. Se deita todas as noites com as mãos na nuca, com a intuição de estar bebendo o vinho da sua juventude. Seu braço arrepia toda vez que pensa na química sexual com a nova parceira.

(06)

Preciso contar a vocês que se viram, jantando em uma sexta-feira de céu estrelado na churrascaria Barranco. Ele e a namorada, ela e o namorado dela. Ambos chegaram a 200 mil batimentos por minuto ao trançar os olhos teimosos em olhar, mas nenhum dos dois lamentou, de alguma forma, estar sentado na mesa errada.

Ela ainda lembra dele quando alguém chupa seu dedão do pé. Ele se recorda dela toda vez que beberica um drinque com abacaxi e leite condensado. Os dois sabem que é perda de tempo tentar esquecer. Que sentir saudade não significa que melhoraram como pessoa, que agora magistralmente seus temperamentos são compatíveis e o correto seria viver aquilo tudo de novo, do êxtase à dor.

Significa apenas que foi bom, que foi inesquecível. E que qualquer amor que força as cordas vocais a produzirem um eu te amo não tem fim, mesmo acabando sempre do mesmo jeito, dividido por dois.


( Gabito Nunes )

terça-feira, 22 de outubro de 2013

♫ ' Pobre de quem me tiver depois de você.

        

        Não me compreendem. Principalmente ele: “Como pode um ser tão singular interessar-se sempre pelos plurais?”, pergunta. Mas tenho me sentido em paz. Não sofro por amor, apenas sinto. As saudades não me machucam. Traições são irrelevantes, prezo pela lealdade. Desinteressam-me as relações convencionais. Minhas paixões continuam extremadas e temperando meu comportamento, mas tenho experienciado solitariamente meus estados. Temo fazer mal ao Outro com minhas hipérboles e, ao mesmo tempo, sei quão meu é todo este processo.

R. me acha paradoxalmente sensível, mas desalmada. Explico que procuro dar aquilo que preciso, não o que querem de mim. E desejam minha alma, mas eu só entrego o meu corpo: minha alma é propriedade da minha escrita. As palavras me governam, não há como libertar-me disto: meu inferno particular guarda este aconchego.

Ontem, chorei antes de dormir. Chorei por falta de qualquer emoção, o peito estava vazio e a conformidade me entristeceu. Hoje, apesar de todas as nuvens cor de chumbo, acordei leve, esfuziante e seduzível. Mas lembro que R. nunca vai me perdoar por não ter sido ele. Por não ter tido o tempo que precisava. Por não ter causado qualquer sensação que me tirasse da zona de conforto. Por não ter estado dentro do meu corpo nem ter arrancado qualquer suspiro de paixão. R. nunca saberá o meu sabor além da sua imaginação.

Respiro fundo olhando pela vidraça o vento alvoroçado. Percebo a crosta de poeira sobre meus livros, revisito alguns capítulos, penso num ensaio de fotos absolutamente original, prendo-me nas imagens e me divirto infantilmente com as cenas. Todos os telefones estão tocando. Não os atendo, estou ausente do mundo de fora agora. "T". deve estar chegando, tem a chave de casa. Quero arrebatá-lo de prazer, fazer amor com alarde.

(R., me perdoa por eu não precisar do teu perdão. Você chegou tarde).

( Marla Queiroz )
( Título: Música: Roberto Carlos )


Depois de todas as tempestades e naufrágios, o que fica em mim é cada vez mais essencial e verdadeiro.

( Imagem: Marla Queiroz )


Trago no corpo
Cicatrizes subcutâneas.
Trago no olhar
Uma tristeza subterrânea
Que o meu sorriso
Se empenhou
Em aniquilar.

Eu nunca fui vítima de nada
Mesmo quando me afoguei
Por não saber nadar.
Eu escolhi o mergulho
E corri o risco
De vivenciar minhas emoções
Em alto mar.

Trago na alma
Alegrias decorrentes
De uma parca memória.
Tenho um passado pesado
Mas reescrevi minha história.

Trago no peito
Apenas amor, gratidão.
A vida me ensinou
Que sobreviver à derrota
É uma grande vitória:
Superação.

 ( Marla Queiroz )

( Título: Caio Fernando de Abreu )

Dor não tem nada haver com amargura. Acho que tudo que acontece é feito pra gente aprender cada vez mais, é pra ensinar a gente a viver. Desdobrável. Cada dia mais rica de humanidade.



Quando nasci um anjo esbelto,desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada. Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir. Não sou tão feia que não possa casar, acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor. Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos- dor não é amargura. Minha tristeza não tem pedigree,já a minha vontade da alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou

( Adélia Prado )

sexta-feira, 14 de junho de 2013

♫' Há uma luz no túnel dos desesperados. Há um cais de porto pra quem precisa chegar



É uma noite longa pra uma vida curta, mas já não me importa basta poder te ajudar. E são tantas marcas que já fazem parte, do que sou agora mas ainda sei me virar. Tô na lanterna dos afogados. Tô te esperando vê se não vai demorar.' ♪

( Música: Lanterna dos afogados )

Seja você mesmo, porque ou somos nós mesmos, ou não somos coisa nenhuma.



Somos um, mas somos vários, num mesmo, num só, num único corpo-espaço, somos um e um milhão, num suposto coração que guarda por dentro o prazer de estar quase todo pro lado de fora, quando bate e explode pro mundo o tudo que tem aqui nesse nosso corpo todo cheio de coisa, todo louco pra fugir do sufoco que é guardar o todo dentro da gente. É por isso que a gente se reparte e faz de tudo um pouco, correndo num infinito corredor cheio de portas abertas, voando mesmo sem asas, suspirando mesmo sem vento e amando mesmo sem ser amado. O tempo é vasto e rápido, a vida é breve, mas leve e boa. Num piscar ou num olhar, a vida voa pro lado de lá e, depressa, a gente tenta alcançar a pressa de ser um só, quando o que resta é a beleza de sermos muito mais que um. Sejamos, então, mais. Sejamos o que somos: soma.

( GIOVANNA ZAMBIANCHI )
( Título: Machado de Assis )

sábado, 25 de maio de 2013

Estou cansada da rotina de me ser.



Não tenho nem o direito de invadir espaços que não são meus. Não sou uma divindade, tampouco juíza. Por isso, me recolho. Sou um grão de areia no meio dessa imensidão toda. E não admito que alguém dê palpite na minha vida, que nada tem de perfeita. Tenho reticências que vivem pegando no meu pé, alguns parágrafos incompletos, frases que começam sem nexo, textos que não se desenvolvem, ideias que mudam de lugar, pontos finais e sílabas que não se casam. Tenho lá minhas melancolias, minhas músicas bregas, meus choros inexplicáveis, meu humor que anda de gangorra, meus momentos de surto e solidão. Porque sou humana. E isso explica tudo.

( Clarissa Corrêa )
( Título: Clarice Lispector )

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Existe uma galáxia inteira no seu piscar de olhos.


( Título: Arcádio )

Be brave . '




Ela gosta da palavra sorriso e solta-os por todos os cantos, sem perder a esperança de que um dia eles se tornem realmente sinceros. Em sua pequena redoma de cristal e aço, ela mal pode compreender o mundo, mas de alguma forma soube onde queria chegar, de alguma forma ela escolheu não ter raízes, de alguma forma ela escolheu crescer, mesmo que intimamente. É uma mistura de reflexo e inversão de mim. É tão delicada, tão desastrada, tão apaixonante, tão impactante. Dona de olhos comparáveis a abismos , que ocultam a história de uma borboleta que não pode voar. Não a magoe, não a machuque, não a subestime, não fira sua honra, não roube seu coração, a menos que vá curá-lo, não se aproxime dela se não pretende compreender seus múrmurios recônditos e sorrisos inócuos. Não existia no universo desta mulher, se não for modificá-lo.

( Autor Desconhecido )